1 - À GUISA DE INTRODUÇÃO:A terra é de Javé! (Por Reuberson Ferreira, mSC)
Segundo
a tradição bíblica, sabe-se que a terra para a cultura semítica é um
elemento sagrado. Essa concepção fundamenta-se em dois princípios
básicos. Um de ordem religiosa e outro de ordem prática. O primeiro
erradica-se na perspectiva de que a terra foi confiada ao povo por Deus.
O segundo, por sua vez, diz respeito a possibilidade de trabalho
conseqüentemente de manutenção da casa e perpetuação do povo.
Nesse
espírito, a palestina para o povo da época de Jesus era duplamente
importante. Esse fato porque fora o próprio Javé (YHWH) que lhes
confiara a terra e sua conseqüente manutenção. Essa concepção teológica
tinha suas implicações sociais, pois era a garantia de que a terra nunca
sairia das mãos dos palestinos, o que lhes assegurava a sobrevivência e
a continuidade do povo. Em contrapartida, por ser a terra propriedade
de Javé, haveria sempre um ano sabático e um ano jubilar que garantiam o
repouso do solo(sagrado)e a liberdade dos escravos.
Alocado no meio
dessas idéias, o presente trabalho visa exprimir, a largos traços,
alguns aspectos físicos e atividades comerciais da palestina no tempo de
Jesus. Pondera-se, contudo, que não há a pretensão de exaurir toda
amplitude da questão proposta. Assim, pois, com intuito de dar corpo a
pesquisa iniciaremos com os aspectos físicos da Palestina.
2 - ASPECTOS FÍSICOS
O
que convencionamos chamar aqui de aspectos físicos são elementos
relativos a: geografia, delimitando a localização da palestina; O clima e
a vegetação, apontando as estações climáticas e a flora existente na
região; por fim, os principais animais que haviam na fauna palestinense.
Iniciemos nossa pesquisa com uma breve digressão para conhecermos o
significado do termo palestina
2.1. PALESTINA: Terra dos filisteus
O
termo palestina, em poucas palavras significa, terra dos filisteus. Há,
contudo, segundo Daniel- Rops controvérsias sobre a utilização desse
termo para designar tal região. Segundo esse pensador o termo
palestina(palestine) designava um povo vencido do qual as terras haviam
sido conquistas.Assim o real nome que os israelitas usavam para indicar a
palestina, “na linguagem nobre, idioma religioso e histórico, diziam:
País de Canaã” . Esse termo servia, pois, para designar a terra
prometida por javé e conquistada a expensas de guerras. Portanto, o
termo palestina significa do ponto de vista religioso, para o povo da
época, o País de Canaã, a terra prometida por Javé. Do ponto de vista,
diríamos, etimológico, era: Terra dos filisteus. Uma vez de posse desse
significado pode-se prosseguir este estudo conhecendo os aspectos
geográficos do país de Canaã.
2.2. GEOGRAFIA: Uma terra de contrastes.
Consoante
Andréia Cristina L. Frazão da Silva, pesquisadora de história Antiga da
UFRJ e do CNPq , a Palestina no tempo de Jesus possuía uma extensão
mediana. Seriam aproximadamente cerca de trinta e quatro mil
quilômetros. Suas coordenadas geográficas estão no paralelo de 31 e 33
ao norte e os meridianos 32 e 34. Essa região era divida em pequenas
áreas. No noroeste estavam as cidades da Judéia, Samaria e Galiléia; ao
norte estava a Itúreia; Ao leste Traconidete, por fim a Indúmeia, ao
sul. Todo esse território era margeada pelo Mar Mediterrâneo, no extremo
oeste. Ao Leste estava o Rio Jordão que desemboca no Mar Morto, ao sul.
Entrecortando toda região havia uma cadeia de montanhas e montes com
600 mts de altura, sendo que os mais altos estavam situados na Galiléia e
no Hermon*.
O solo palestino é bastante contrastante. Em algumas
áreas é quase totalmente árido sendo próprio para o cultivo de
carneiros. Em outras regiões, porém, é bastante fértil, chegando a
produzir um número diversificado de plantas. Num panorama geral, pode-se
dizer que a Palestina apresenta um grande número de vales, grotas
naturais, montanhas, desertos e depressões bem como diversas áreas
férteis. Esses elementos, principalmente, constituem o solo da região.
Contudo, os aspectos geográficos de uma região são, em muito,
determinados pelas suas condições climáticas.
2.3. CLIMA E VEGETAÇÃO
2.3.1. Clima: da oscilação a estabilidade
Relativo
aos aspectos climáticos da Palestina pode-se dizer que era um clima que
apresentava uma oscilação necessária e, paradoxalmente, uma certa
estabilidade. Tal oscilação diz respeito a variação do clima entre
chuvoso e quente. A estabilidade,por sua vez, era porque essas duas
estações tinham suas épocas determinadas.
A Palestina possuía, pois,
duas estações bem definidas. Um período chuvoso e outro de intenso
calor. O período chuvoso compreendia, geralmente, novembro a março. Era
um período rigoroso e com muitas chuvas irregulares. Segundo Daniel
–Rops a quantidade de água era de 420 mililitros d’agua por ano, sendo
que nas regiões mais altas, como a Galiléia, o volume de água era de 600
mililitros.
Nos demais meses que configuravam a outra estação o
clima era de temperatura bastante acentuada. A temperatura média dessa
estação, segundo alguns pesquisadores, era de 23,5º graus, sendo que a
máxima e a mínima eram, 25º e 15º graus, respectivamente. As
temperaturas mais altas nessa estação seriam no vale do Jordão e no
planalto.
Uma outra variante do clima palestino eram os constantes
ventos. Os do oeste e do sudoeste,no calor, eram sempre agradáveis, pois
traziam umidade e orvalho. Aqueles, porém, oriundos do leste, no
entremeio das duas grandes estações, tornavam o clima seco e quente e,
por vezes, desidratava pessoas e animais. Há por fim, um vento que vem
do deserto(Kasmim) que poderia num “dia tornar os campos áridos durante
meses” . Dado o reconhecimento do clima pode-se inquirir sobre a
vegetação
2.3.2. VEGETAÇÃO: Sagrada e econômica
No que
tange a questão da vegetação a Palestina, apesar de suas condições
climáticas adversas - conforme já descrevemos-, apresenta uma certa
diversidade. As arvores mais comuns e que não tinham uma função
econômica eram o carvalho e os Terebintos . Estas plantas tinham seu
valor determinado pela sua utilidade, como a sombra, por exemplo.
Um
outro tipo de cultivo de plantas era motivado por sua aplicabilidade
econômica e religiosa. Havia aquelas de ‘primeira’ grandeza como a
oliveira, a figueira e videira. Estas eram cultivadas por causa de sua
necessidade na alimentação diária ou por seu valor farmacêutico, contudo
havia uma função que lhes era facultada comumente, a liturgia do
templo. Havia ainda as de ‘segunda’ grandeza, como ameixeira, macieira,
pareira e os sicomoro.
Os principais cereais eram a veia e o trigo.
Este era a o alimento mais precioso aos olhos do povo da Palestina, ao
passo que, aquele era desprezado porque era destinado aos animais e,
muitas vezes, aos pobres.
As lentilhas, as favas, a cebola, o alface,
a chicória, as endivas, os agriões, as beldroegas, constituíam as
hortaliças. Algumas tinha sua função simplesmente nas refeições diárias e
outras eram usadas como base das ervas amargas na festa do cordeiro
pascal.
Por fim, entre o clima diversificado e uma produção agrícola
ampla, cabe saber quais tipos de animais eram criados nessa região.
2.4. ANIMAIS: Sagrados, porém úteis!
Os
animais que existiam na vida dos palestinos contemporâneos de Jesus era
um número significativo. Uns eram cultivados pela utilidade religiosa e
outras por servirem para o transporte de cargas. Os animais que tinham
sua existência em vista do sacrifício religioso eram : o touro, os
carneiros e os bodes. Estes animais movimentavam um grande comércio no
templo. Consta que “em um ano apenas, no templo consumiam-se 1093
cordeiros ou cabritos, 113 touros e 32 bodes para os sacrifícios
públicos” .
O burro e o camelo eram destinados para o transporte de
cargas. Os burros eram reservados para conduzir pessoas e cargas em
distâncias médias, para as percursos maiores eram utilizados os camelos,
por sua resistência em regiões desérticas.
Entre as aves, pode-se citar a galinha, os pombos e patos como os mais comuns.
Existia,
por fim, a criação de porcos que para o povo judeu era considerado
impuro, mas foi cultivado pelos povos vizinhos, chamados muitas vezes de
pagãos.
Conscientes das características físicas da Palestina do
tempo de Jesus, pode-se adentrar nos elementos do comércios, que
dependiam significativamente da geografia, do clima e dos animais.
3 - COMÉRCIO E ATIVIDADES (Frei Rodrigo Fávero Celeste, OFMconv)
3.1. PROFISSÕES
Na
época de Jesus, na Palestina, a principal forma de profissão era o
artesanato. O fabricante, ele mesmo fabricava e vendia suas mercadorias
aos clientes. Todos deveriam exercer uma profissão, fato que ocorrendo
ao contrário era tratado com extrema repulsa. Mesmos os escribas
deveriam exercer uma profissão. Paulo era fabricador de tendas. Outras
profissões que os doutores poderiam exercer era o de fabricante de
prego, comerciante de linho, padeiros , fabricante de cevadinha,
curtidor, copista, fabricante de sandálias, arquiteto, comerciante de
betume, alfaiate. Algumas outras profissões eram tidas como desprezíveis
como, por exemplo, a de tecelão.
Os principais produtos fabricados
na província da Síria, que exercia forte influência sobre Jerusalém
naquele período eram os artigos de lã como tapetes, cobertas e tecidos,
também ungüentos e resina perfumada. A família herodiana investia muito
em construções fazendo com que a indústria de construção expandisse em
Jerusalém .
Também era considerada artífice a função de médico, que
naquele período estava em cada região e em cada povoação . Havia os
barbeiros, as lavadeiras de roupa como ocupação principal das mulheres,
havendo, porém, os lavadeiros profissionais. E em relação ao Templo
encontra-se a menção aos trocadores que se ocupavam do dinheiro . Os
profissionais se distribuíam nas lojas que estavam distribuídas nas
ruas.
3.2. ASPECTOS COMERCIAIS
O comércio, tanto
interno quanto externo, também era praticado. O comércio interno, pouco
conhecido, consistia-se nas trocas locais e, sobretudo, visava o
abastecimento das grandes cidades. Quanto ao externo, importava-se
produtos de luxo, consumidos pelas elites e pelo Templo. Por outro lado,
exportavam-se alimentos – frutas, óleo, vinho, peixes – e manufaturas,
como perfumes, além do betume.
Como nos informa Joaquim Jeremias, a
profissão de comerciante sempre foi muito valorizada na Palestina do
tempo de Jesus. Os próprios sacerdotes comerciavam. Camelos e jumentos
eram utilizados para o transporte de mercadorias, conforme fora
mencionado em secções anteriores. Chegados em Jerusalém pagavam as taxas
aos cobradores encaminhando-se logo após para o bazar da mercadoria.
Havia diversos mercados: o de cereais, de frutas e legumes, de gado, de
madeira. O peso dos produtos era contado por qab e não por décimos como
na maioria dos lugares. Os estrangeiros podiam trocar seus dinheiros com
os cambistas, porque Jerusalém tinha uma moeda própria. Como em toda
cidade grande, em Jerusalém os preços eram sempre altos.
A principal
atividade econômica da região, contudo, era a agricultura. Plantava-se
trigo, cevada, figo, azeitonas, uvas, tâmaras, romãs, maçãs, nozes,
lentilhas, ervilhas, alface, chicória, agrião etc. Além da plantação de
alimentos, eram encontrados cultivos especiais, voltados para a produção
de manufaturas, como rosas, para a produção de essências para os
perfumes.
As atividades de pesca, pecuária e extrativismo também não
podem ser esquecidas, devido a sua grande importância econômica.
Banhada pelo Mediterrâneo, cortada por rios e possuindo lagos, não é
difícil constatar a variedade de peixes e seu papel para o abastecimento
interno e até exportação. Quanto à pecuária, a região possuía rebanhos
de ovelhas, cordeiros e bois. No campo da extração, além do já
mencionado betume, há que ressaltar a variedade de árvores, como o
salgueiro, loureiro, pinheiros, das quais se extraía madeira, temperos e
essências; certos animais, como pombas; e alimentos, como o mel.
Os
produtos das cidades vizinhas passavam diretamente do produtor aos
consumidores. E, na Palestina de então, se praticava com freqüência o
sistema de troca. Atuavam no comércio também os mercadores ambulantes,
assim como os grandes negociantes que possuíam empregados e viajavam. Em
Jerusalém eram feitas transações de grande vulto.
A influência da
Grécia sobre o comércio palestinense sempre foi muito forte. Muitos
mercadores atenienses viviam em Jerusalém. Escravos de ambos os sexos
vinham da Síria. Alguns vinham de muito longe e passavam como
mercadorias de trânsito, pelo grande mercado de escravos em Tiro.
A
Babilônia fornecia tecidos valiosos: jacinto, escarlate, bisso, púrpura.
O Templo importava tecidos até mesmo da Índia. Importavam-se
especiarias da Mesopotâmia. A Palestina sempre manteve intensas relações
com o Oriente, sobretudo com a Arábia que lhes forneciam os aromas para
os perfumes. Vinham de lá também os leões e outros animais selvagens
para as lutas de feras .
A produção e a economia baseava-se no
trabalho escravagista. Os escravos não eram considerados pessoa, mas
coisas de que seu dono podia dispor conforme lhe conviesse, comprando-os
e vendendo-os.
3.3. CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS
Era
sempre em torno de Jerusalém e na própria cidade que se desenvolviam o
comércio e as constantes transações, devido a sua posição central na
Judéia. Além de sua posição privilegiada, Jerusalém se beneficiava de
relações marítimas fáceis pelos portos de Ascalon, Jafa, Gaza e Acra.
Pela
Palestina circulavam soldados, comerciantes, mensageiros, diplomatas,
etc. Esta região possuía importantes centros urbanos, como Cesaréia e
Jerusalém, que concentravam pessoas e atividades econômicas. Como em
outras áreas do Império, nesta região existiam vias e portos, que
facilitavam as comunicações e o transporte de mercadorias e pessoas.
Jerusalém possuía grande atividade comercial devido a dois fatores: a)
era a cidade do Templo e a capital do Estado e b) como centro religioso e
político era também centro econômico importante. Abriga a corte, a
aristocracia sacerdotal e, também, a nobreza leiga, que trazem para a
cidade grandes recursos financeiros.
3.4. MEIOS ECONÔMICOS
A
moeda Tíria era a moeda do Templo, isto é, era o valor pago ao Templo
devido à quantia que devia ser reservada, prescrita na Torá Esse
imposto pago ao Templo em moeda tíria (tetradracma ou estatere) era
também utilizado para as transações comerciais sendo que, uma moeda
estrangeira se torna moeda do santuário. O dinheiro nada santo pode ter
valor sagrado.
É essencial fazer menção sobre a cobrança das taxas
de impostos pagas para a atividade comercial na Palestina. O publicum
era um imposto que incidia sobre a a compra e a venda de qualquer
produto, mesmo sendo de primeira necessidade. Essa taxa havia sido
imposta pelos romanos sendo cobrada na importação ou exportação, nas
divisas territoriais. Os responsáveis para a arrecadação destes impostos
eram os publicani. .
4 - CONCLUSÃO
A palestina no
tempo de Jesus é um aspecto importante da reflexão bíblica atual. Ela é
imediatamente necessária para uma compreensão mais ampla e abrangente do
contexto em que o Jesus histórico estava situado, conseqüentemente as
diversas referências bíblicas a lugares, animais, dinheiro e distancias
no novo testamento..
Tentou-se refletir a partir de constatações em
obras de referência. Elas nos apresentam o mundo palestinense e toda a
sua complexidade. Muito dos aspectos geográficos foram-se desenvolvendo
ao longo de anos e a expensas de muitas revoltas – embora não tenhamos
explorado sob esse angulo. Os aspectos econômicos estão diretamente
localizados no âmbito da pecuária, da agricultura , da exportação e
importação. Embora não mencionado diretamente, vale lembra que toda
economia,da época de Jesus, estava vinculada a situação política que
esse país vivia, que embora independente em muitos aspectos estava
vinculada ao grande império Romano.
Por fim, a pesquisa não teve
pretensão de exaurir toda complexidade da questão, mas apenas suscitar
uma breve panorâmica o contexto que Jesus viveu lançando luzes para se
compreender todo o aparato histórico do novo Testamento, particularmente
dos Evangelhos.
REFERENCIAS
BIBLIA DA JERUSALÉM. São Paulo: paulus. 3ª impressão. 2004.
JEREMIAS,
Joaquim. Jerusalém no Tempo de Jesus: Pesquisas de história econômico
social no período neotestamentário. São Paulo:1983. Paulinas
LOHSE, Eduard. Contexto e Ambiente do Novo Testamento. São Paulo: 2000. Paulinas
MCKENZIE. John. L. Dicionário bíblico. São Paulo: paulus. 1983.
ROPS, Daniel. A vida quotidiana na palestina no tempo de Jesus. S/ l :Edição Lisboa.19??.
SAB:
O Eterno entra na história: a terra de Israel no tempo de Jesus. São
Paulo: paulinas, 2002.(coleção bíblia em comunidade. Série visão global,
v12)
SILVA, Andréia Cristina L. Frazão da. A palestina no século I
D.C. http://www.ifcs.ufrj.br/~frazão/palestina. htm. Acessado em
24/08/2006.